quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

ESCRITORES E POETAS DA ACADEMIA IV





Osvandir, a Madame e o Cão




Manoel Gonçalves do Amaral


Osvandir estava num daqueles dias difíceis, que até aqueles três pontinhos atrás de sua orelha esquerda, herança da sua última abdução, começaram a doer. A cidade onde iria ainda estava longe, a uns 100 km de distância.
Parou na beira da estrada para tomar um cafezinho e, ao sair, ouviu um assunto que lhe interessou. O pessoal fazia referência a uns seres peludos que andavam aparecendo no meio do mato e na próxima cidade, onde iria visitar.
Seguiu mais temeroso pela estrada, logo que seu carro começou a ganhar velocidade, notou qualquer coisa atravessando a estrada aos saltos.
O seu corpo começou a tremer e sentiu um friozinho subir a espinha dorsal.
Depois de um velho pequizeiro, já preto pelas constantes queimadas de beira de rodovia, viu uma placa indicativa de trevo para a cidade.
Diminuiu a velocidade, contornou à direita e ia seguindo por aquela estrada de terra, quando apareceu uma vaca sem ele saber de onde saiu... Seria mesmo uma vaca? Não prestou muita atenção.
Alguns pontos de referência como uma montanha já bem escavada para retirar cascalho, uma pequena ponte de madeira, depois do bambuzal.
Chegou à cidade depois de uma pequena elevação de terreno. Lá em baixo, dava para ver que era pequena, não passava de uns vinte mil habitantes.
Foi passando por aquelas ruas, algumas calçadas, outras não, até chegar a um hotel indicado por um proprietário de bar.
Fez aquelas fichas, assinou o livro e recebeu a chave para o seu quarto. Desfez as malas e deu uma olhada pela janela. Uma casa grande chamou-lhe a atenção, por causa de quatro pilares bem na entrada que poderiam significar: Ciência, Filosofia, Arte e Mística.
Pensou: “Deve ser de alguém letrado, ligado a estas ciências antigas”.
Procurando se informar melhor, ficou sabendo que aquela casa fora construída por um alemão, depois da segunda guerra mundial, mas hoje era ocupada por uma viúva jovem de um grande empresário, ligado área de produtos alimentícios.
O dito empresário seguia em seu bimotor para São Paulo, quando sofreu acidente. O seu corpo nunca foi encontrado.
Com todas essas informações, Osvandir, curioso, não deixou de observá-la, quando podia, com seu possante binóculo.
Tomou um banho frio, desceu as escadas, ele estava no segundo andar do hotel, almoçou e foi dar umas voltas, comprar jornais e ver se conseguia mais informações sobre as estranhas criaturas peludas.
Um dos jornais que comprou, com o sugestivo nome de “O REPÓRTER”, era mais sério, publicava propaganda das obras do Prefeito, já o outro, em formato de tabloide, com cada página medindo aproximadamente a metade do tamanho do outro jornal, só para gozar o principal, tinha o nome de “ARRE PORTER”. Este pequeno jornal era mais fofoqueiro, publicava página policial, esportes, fotos de mulheres bonitas, tudo que o povão gosta e o preço era baixo: R$0,25.
Numa roda de amigos, ficou sabendo que há dois dias aparecera alguma coisa diferente na periferia, à noitinha, mas, quando foram apurar era um jovem que pulara o muro da casa da namorada...
            Ao chegar no seu quarto, pegou o binóculo e olhou aquelas ruas escuras, já era quase meia noite. Alguma coisa chamou-lhe a atenção; no quarto da viúva havia uma criatura negra, do tamanho de um cão.
No outro dia, quis saber do gerente do Hotel Pirâmide, o que era aquilo que viu na noite anterior, na mansão da viúva. O velho Senhor José informou-lhe que ela não largava daquele cão negro, o dia inteiro.
Desconfiado, passou a observá-la à noite. Por trás daqueles finos tecidos da cortina da janela, descobriu que o animal ficava na cama deitado com ela.
No fundo do quintal, uma piscina grande, com água azul. Toda manhã ele nadava junto com aquela Senhora.
O tempo foi passando e Osvandir ficando impaciente, nada acontecia de anormal naquela cidade tão falada.
Porém, sempre existe um porém, naquela noite ele foi deitar mais cedo e, de manhã, foi despertado por um barulho diferente nas ruas, um zunzum de pessoas por toda parte.
Na frente da mansão da viúva, uma ambulância e enfermeiros entrando e saindo. Não viu o cão preto. Mais tarde soube do que aconteceu.
Ao pegar o caminho de casa, resolveu comprar os dois jornais rivais: “O Repórter” e o “Arre Porter”. O primeiro trazia a seguinte manchete: “Cão agrediu Viúva”. O outro dizia: “Viúva da mansão foi estuprada por seu cão” e completava dizendo que os dois, grudados, foram parar no hospital.



Manoel Gonçalves de Amaral - Ocupa a cadeira nº 08 - Patrono Monteiro Lobato - Antecessor Geraldo Hamilton de Menezes.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ESCRITORES E POETAS DA ACADEMIA III

ENCANTAMENTO





* Mercemiro Oliveira Silva - Lírica Extemporânea
2013. Divinópolis MG

Observa o regato ao lado
Vê que nele coruscam estrelas de prata
Expedindo os reflexos do morno sol da tarde
São peixinhos que te vêm saudar
E admirar-te por fugaz instante.

Sente o odor das flores
Que a fresca brisa conduz
Ao vir acariciar-te a pele delicada
Aí, onde estás tu, recostada na alcatifa
Entretida, ora com o zinir das abelhas
Que vêm sugar a flor da laranjeira
Ora com galanteio do João-de-barro
À companheira, no alto do ipê florido.

Ouve os sons da noite que se avizinha
Quando geme a juriti na mata próxima
E pia o chitão chamando a companheira
Ouve o Canto apaixonado de um canário
Enquanto álacres maitacas passam tagarelando.

Aconchega-te a mim
E ausculta-me o peito
Meu coração bate afoito
Como o bimbalhar de festivos sinos.

Não Creias que quando eu morrer
Meu coração deixará de pulsar
O fluido coração de minha alma etérea
Continuará, por ti, pulsando.

Se não acreditares
Mira aquela estrela que, no alto, pisca silente
E sentirás meu coração arfando junto ao teu.

Sente que há vida pulsando na mata
Há vida pulsando nas águas do regato
Há vida pulsando no ar
E, no céu, as estrelas pulsam
Em cada uma, o coração de um poeta que se encantou.





* Mercemiro Oliveira Silva - Ocupa a cadeira nº 21. Patrono Guilherme de Almeida. Antecessor Hebert Brant Aleixo.

sábado, 3 de dezembro de 2016

ESCRITORES E POETAS DA ACADEMIA - II

SINFONIA DOS VENTOS



Maria Aparecida Camargos Freitas*


Rugem os ventos em acordes graves
quando, no topo dos montes, tocam
e retumbem nos vales.

Mais suavemente são ouvidos, então,
quando de leve beijam
as flores da campina.

São serenatas
de profundos amores
quando tocam
as faces róseas dos amantes,
em êxtase de gozo e 
de paixão.

Quando soam
em vozes arrojadas,
fluentes, graciosas, 
são sons que embalam a vida
que renasce;
também embalam a 
morte que liberta.

Vibram em concerto,
entre as árvores e o rio,
provocando nos corações apaixonados
a sensação de promessas já cumpridas.



Maria Aparecida Camargos Freitas ocupa a cadeira nº 35 - Patrono Cora Coralina - Sem antecessor.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ESCRITORES E POETAS DA ACADEMIA I


FAZENDA OLHOS D'ÁGUA



Nunca me esquecerei das histórias contadas por meu pai.
Homem de uma memória extraordinária.
Nunca me deparei com pessoas que acumulassem
tantas informações e detalhes sobre a história
de nossa família como José Pinto Filho.
Seja cavalgando, em sua companhia, léguas de distância
neste sertão desbravado por Inácio Correa Pamplona
 e José João Pinto da Cunha, patriarcas dos Paim Pamplona
 e dos Pinto da Cunha de Corguinhos ou, na  sala de sua
centenária Fazenda Lagoa Redonda.
Nunca me esquecerei dessas memórias por ele proclamadas.
Quantas coisas sonhei, pensei, desenhei, escrevi e vivi... ao ouvi-las.

Marco Antônio Pinto - Ainda o Amanhecer
2013. Ed. Serfor pag. 67





Nunca me esquecerei das histórias
contadas por meu Pai,
que todos carinhosamente
chamavam-no de Tio Zezé.

Naquelas manhãs,
no vale de Olhos D'Água.
Na fazenda de Vovô Zé Pinto
antes do nascer do sol,
o engenho já girava.
Melado com farinha no sereno
já dominava.

O cheiro do curral no leite
jorrava teimoso no café...
Os bois em cadência
mascando e remoendo
indo para roças felizes.

Ao lado do engenho
as tias apavoradas
na arrumação de um porco.
Vovô rasgando pele queimada
para os tira-gostos
que nunca tirava.

E no salão da fazenda,
depois de uma peneirada
de biscoito de polvilho
com café, leite ou chá,
as fiandeiras falavam
fiando novelos de diálogos.

Já nos tachos
o melado perdia o cristal amarelo
e os engenheiros da rapadura,
bravos e impacientes
gostavam sem querer
que vovô comesse
da escura rapadura pura.

Ali na manga,
os porcos garimpavam
milhos no palheiro
e o canto de um galo
se misturava ao pio de um inhambu,
causando a preguiça do almoço
já dominado.

Naquela imensa casa
a família nascia e crescia:
a Irondina,
o Argemiro,
o José
e o Isoldino.

A persistência de vovô
crescia no engenho, na casa, nas roças.
Crescia naquelas pedreiras dos bagres.
Naquela terra puro calcário
que outrora criaram musgos e orquídeas,
perturbadas pelo fole da oito baixos
que vovô tocava!

Vovó Salvina partiu mais cedo,
Mas vovô casou-se com Albertina
que meu pai ensinou-me
chamar de vó Albertina.
Com ela, vovô
Trouxe outras manhãs que nasciam e cresciam:
a Maria
a Nérea
o João
 e a Tita

Nunca me esquecerei dos relatos de meu pai.
Daquelas manhãs
que eu parecia ter vivido.
Das auroras
que meu avô chamava de barra do dia!
Dos tira-jejuns!
Do feijão no torresmo com ovos fritos.
Uma cachaça
e outras nervosias*.

Ah! Fazenda Olhos D’Água!
Quantas águas correram em suas telhas?
Quantas madrugadas desaparecidas?

Ah! Fazenda Olhos D’Água!
Do Vovô Zé Pinto.
Hoje somente retalhos de sua existência
na memória daqueles que lá viveram
e no gorjeio de pássaros
que cantam restos de sonhos.
Memórias de um passado
Cantado... contado pelo meu pai.
Que jamais passará
Que jamais esquecerei!


Marco Antônio Pinto. Ocupa a cadeira nº 12 Patrono Castro Alves. Antecessora Rosa Freitas Sousa.


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